segunda-feira, 6 de maio de 2013


ESPIGAS


 


Lembro-me…


Os teus olhos tinham


o dourado das espigas sazonadas


das planícies alentejanas


e uma alegria de sol poente


que te adoçava o sorriso.


 


Prouvera que fossem verdes


como a nossa Primavera,


com cambiantes de paixão


e ternura nos gestos.


Mas eram da cor do mel!


de brilho lânguido e esquivo.


Promessas de universo


para além de nós.


 


Feneceram os olhos


e os universos pararam ao virar da esquina.


Há uma saudade líquida


nas pupilas cor de palha


que lhe dilui os contornos


Saudades do que não foi!


 

 

                                    Helena Guimarães

CANSAÇO

Um cansaço de vontade

elanguesce-me o corpo,

aperta-me a fronte.

Não encontro o caminho

para além de mim.

O mar lambe a areia

saciado da raiva da tormenta

e a brisa gelada

esvoaça nas penas das gaivotas

que descansam na areia,

em lamúrias de gritos e voos rasos.

O sol atravessa a vidraça

mas está frio.

O frio lá de fora no meu peito.

Eu, sou apenas eu

enrolada em mim.

A vida a espraiar-se a meu lado,

 o cansaço a prender-me as mãos.

Já não há caminho para o infinito!

 

Helena Guimarães

JÁ NÃO ESCREVO POESIA

 

Já não escrevo poesia.

Tento, não há maneira.

É tempo de prosa dura.

Que uma mulher, por inteira,

rasga-se por dentro em agrura,

ao ver o irmão que passa

a tentar cumprir-se Homem

e a esconder a vergonha

de nunca o poder ser.

Já não escrevo poesia.

Perdi o sol e o mar,

a alba e o poente,

a beleza deste chão

onde aprendi a ser gente.

Perdi o caminho da alma,

amarraram-me ao cifrão

neste País desesperado,

sem rumo, amodorrado,

sem achar a solução.

 

Helena Guimarães

AS PALAVRAS ESTÃO GASTAS


 

As palavras estão gastas!

As ideias redondas, buriladas.

A lógica afunda-se absurda

e o que não é explode

dos lábios do impostor.

Tristeza em ondas invade

 ruas, bairros, céu e chão,

 serras campos e baldios.

E o Homem grita a impotência,

e a incapacidade de vencer os desafios.

Traz o Inverno na alma,

traz a fome no corpo.

Altos muros se levantam

amarfanhando a vontade.

Onde está a Liberdade?

As palavras estão gastas!

A lógica é absurda.

As faixas não tem sentido,

os gritos não têm asas.

Esbarram em orelha surda.

E a vontade de todos

soçobra ao poder de alguns.

O cansaço nos esmaga,

tiram-nos a casa e o pão.

As palavras estão gastas!

A lógica é absurda.

Estamos em servidão.

Helena Guimarães

MULHER

 

Mulher é Terra

é vaso, é semente.

É paz, é guerra,

lágrima, sorriso.`

É força, é luta

é grito.

É regaço e alimento,

Oásis no deserto.

É o amor por dentro.

Mulher é laço

Túnica, sari

Burka ou véu.

É o mundo num abraço,

um bocadinho de céu.

É calor e é desejo.

O infinito num beijo!

 

Helena Guimarães

terça-feira, 23 de abril de 2013

Os "Amanuenses" da TROIKA




Chegam sempre lá de longe

parecem os três Reis Magos.

Não sabemos se são gagos,

nunca lhes ouvimos um pio.

 Não trazem ouro nem mirra,

apenas cara de ”birra”,

mas são insensados cá.

Eles são nosso desdouro!

O Baltazar escurinho,

da Etiópia oriundo,

é quem comanda a viagem,

o roubo e a agiotagem

 este sacar, sacar sem fundo.

No Ritz instalado esquece

o famélico povo seu.

Trás com ele o Melchior

com a careca a brilhar,

que vem do norte nevado

e nos chama mandriões.

Ao lado, em passo alargado

o teutónico Gaspar,

que tem por cá um homónimo

que passa a vida enganado.

 E dão-se ares de mandões!

Estes três Reis dos mercados

que de Magos nada têm,

são os amanuenses da Troika

que nos couberam em sorte,

os leva-e-trás de Bruxelas] 

sem poderes, enfim, coitados,

a quem, nas reuniões secretas,

este regime em desnorte

de tal maneira se curva

que até rasga as cuecas.

 

Helena Guimarães



 [H1]

quarta-feira, 10 de outubro de 2012


A BANDEIRA ESTÁ AO CONTRÁRIO

 
“ A bandeira esta ao contrário”
disse o homem da rua,
como a criança da fábula
gritou “ o rei vai nu”.
E o Povo acordou,
a tristeza sacudiu,
de desprezo gargalhou,
tornou-se força, rugiu.
Descreu de tanta mentira,
das teorias de cordel,
soube que a realidade
é única e não cabe
numa folha de Exel.
As marionetes da Europa,
sentadas nos gabinetes,
admiradas, tremeram.
Usaram as portas esconsas,
nos palácios se esconderam,
tiveram medo das gentes
que o pão dos filhos pediam.
E, tristes pela sua Pátria,
ao ver as invertinas quinas
os mais velhos só diziam,
em jeito de corolário:
“ Portugal, como a bandeira,
também está ao contrário”
 
 
Helena Guimaraes